Habitando o Mar: As cidades flutuantes de Bjarke Ingels Group

OCEANIX/BIG-Bjarke Ingels Group
O mar sempre foi metáfora de infinitude, mas agora se torna também palco de urgência. No horizonte do século XXI, a humanidade se vê diante de uma contradição histórica: ao mesmo tempo em que os oceanos oferecem vastidão, circulação e recursos, eles se transformam em ameaça concreta devido ao aquecimento global e ao consequente aumento do nível das águas. É neste contexto que o Bjarke Ingels Group (BIG), escritório dinamarquês reconhecido pela ousadia visionária, propõe o Oceanix, um protótipo de cidade flutuante que reposiciona a relação entre arquitetura, urbanismo e mar.
Mais do que uma resposta técnica à crise climática, o projeto desenha uma nova narrativa: a da habitação sobre as águas como possibilidade concreta e necessária.

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O desafio: cidades costeiras em risco
Segundo a ONU, até 2050, o risco de aumento do nível do mar de até 21 centímetros, com vulnerabilidade específica de algumas cidades e ilhas, dentre elas Rio de Janeiro e Atafona (RJ) e grande ameaça a nações insulares do Pacífico, onde 90% da população vive perto da costa e metade da infraestrutura está a menos de 500 metros do mar, tornando-os particularmente expostos.
Se o século XX foi marcado pela expansão das cidades sobre o território, o XXI nos convoca a repensar o espaço habitável, deslocando o olhar da terra firme para o oceano.
Neste ponto, Bjarke Ingels, conhecido por fundir ciência, tecnologia e utopia em suas obras, assume protagonismo. Seu escritório não apenas projeta edifícios icônicos; ele propõe sistemas capazes de reformular a vida urbana em escala planetária.
“A ideia que estamos apresentando aqui não é que todos viveremos no mar no futuro. Não será um mundo aquático. Esta é simplesmente outra forma de habitat humano que pode ser uma semente, que essencialmente pode crescer com seu sucesso, à medida que se torna social e ambientalmente desejável escolher esse estilo de vida”, disse Ingels em entrevista a Dezeen.
Oceanix: uma cidade modular e flutuante
Apresentado pela primeira vez em 2019 em parceria com a ONU-Habitat, o Oceanix é concebido como um conjunto de módulos hexagonais que se conectam, formando bairros, distritos e, em última instância, cidades inteiras. Cada unidade é projetada para comportar cerca de 300 habitantes, podendo se expandir de maneira orgânica até atingir milhares de moradores.
“Nós nos baseamos nessa ideia modular de uma ilha hexagonal. Ela tem a direção universal de um círculo, mas tem a modularidade e a racionalidade de algo feito pelo homem”, afirma Ingels.
O sistema é flexível: adapta-se a diferentes contextos geográficos e culturais, podendo ser ancorado próximo a cidades costeiras ou mesmo em alto-mar. A ideia é que essas plataformas sejam autossuficientes, combinando produção de energia limpa, ciclos fechados de água e alimentação por meio da aquaponia e agricultura vertical.
Diferentemente das utopias futuristas desconectadas da realidade, o Oceanix parte de um problema concreto, as áreas costeiras ameaçadas, e oferece uma solução escalável que se aproxima tanto de um laboratório de inovação quanto de um modelo replicável.

OCEANIX/BIG-Bjarke Ingels Group

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O humano e a água: uma relação em transformação
Habitar sobre a água é também revisitar uma relação ancestral. Povos marítimos como os Bajau, no sudeste asiático, sempre viveram em casas flutuantes, adaptados à fluidez e à instabilidade do oceano. Conhecidos como “nômades do mar”, os Bajaus vivem no mar há séculos e são mergulhadores, permanecendo submersos por até 13 minutos a profundidades de cerca de 60 metros, o que justifica a ideia da adaptação.
O que o Oceanix propõe é traduzir essa sabedoria em escala global, utilizando a tecnologia para transformar a água de ameaça em abrigo.
A simbologia é potente: as cidades flutuantes não seriam apenas refúgios climáticos, mas também experimentos sociais. Viver sobre o mar exige novas formas de convivência comunitária, uma vez que a proximidade, a autossuficiência e a interdependência são condições para o funcionamento do sistema. Nesse sentido, o projeto de Ingels é tão antropológico quanto arquitetônico.

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Dessalinização: chave para o futuro alimentar
A discussão sobre cidades oceânicas inevitavelmente toca em um ponto crucial: a dessalinização. Com mais de 97% da água do planeta concentrada nos mares, pensar em ocupação oceânica é também pensar no acesso à água potável e na produção de alimentos.
O Oceanix integra sistemas de captação e purificação, mas, em escala mais ampla, nos obriga a imaginar uma era em que a dessalinização (hoje ainda cara e concentrada em países como Arábia Saudita e Israel) seja tecnologia democrática e acessível. Cidades flutuantes, portanto, só fazem sentido se associadas a avanços nesse campo, ampliando a autonomia das comunidades e reduzindo sua dependência da terra firme. E que, segundo Peter Diamandis e Steven Kotler, no livro Abundância, isso ocorrerá em breve.
“Com 40% da população terrestre vivendo dentro de um raio de 100 km do litoral, é na combinação de nanotecnologia e dessalinização que residem as maiores esperanças.”
A água dos mares e oceanos representa cerca de 97,5% do total de água presente no planeta Terra. Esse volume é de água salgada, que não é própria para consumo humano sem um processo de dessalinização. Em contraste, a água doce, disponível para consumo, representa apenas cerca de 2,5% da água total e está principalmente concentrada em geleiras e calotas polares, além de águas subterrâneas.

OCEANIX/BIG-Bjarke Ingels Group

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BIG: arquitetura como ecossistema
Bjarke Ingels sempre defendeu uma arquitetura que vai além do edifício. Seus projetos não são objetos isolados, mas ecossistemas integrados: praças sobre usinas de energia, fachadas que se tornam infraestruturas urbanas, museus que são também espaços públicos. O Oceanix é, talvez, a síntese mais clara dessa visão, ao propor que a arquitetura não se limite a resistir ao mar, mas que aprenda a coexistir com ele.
Neste sentido, o BIG reconfigura a noção de cidade: não mais expansão horizontal sobre a terra, mas colonização sustentável das águas. É uma inversão de paradigma que, se levada a sério, pode marcar um novo capítulo na história da urbanidade.
Habitar o mar: utopia ou destino?
Ao observarmos o Oceanix, surge a questão inevitável: estamos diante de uma utopia visionária ou de um destino inevitável? Talvez de ambos. Assim como as primeiras cidades erguidas no Crescente Fértil¹ foram resposta às cheias dos rios, as futuras cidades flutuantes poderão ser resposta à expansão dos mares. O projeto de Ingels não deve ser lido apenas como proposta arquitetônica, mas como ensaio de futuro: o convite a imaginar um mundo em que a fronteira entre terra e água deixa de ser limite e se torna continuidade.
O Oceanix é mais do que uma plataforma flutuante; é um símbolo de que a arquitetura pode, e deve, estar à altura dos maiores desafios da humanidade. Em tempos de emergência climática, olhar para os oceanos não é mais contemplação poética, mas ato de sobrevivência e reinvenção.
Se o mar avança sobre nós, talvez seja hora de aprender a viver sobre ele. E a pergunta que fica é: estaremos prontos para trocar o chão firme pela fluidez do oceano como base da nossa vida coletiva?
¹ Crescente Fértil é região em formato de lua crescente no Oriente Médio e Norte da África que abrange países como Iraque, Turquia, Síria, Líbano, Israel e Egito. Essa área, banhada pelos rios Tigre, Eufrates e Nilo, é considerada o berço da civilização, pois foi onde ocorreram a revolução agrícola e o surgimento das primeiras cidades, levando ao sedentarismo e ao desenvolvimento de técnicas como a escrita e a irrigação.
fotos: OCEANIX/BIG-Bjarke Ingels Group
Jornalismo: D+ Editora
Fonte: Viva Magazine



