Direto da 3ª edição da Viva Magazine, entenda como povos como os Kaiabi e os Pataxó enxergam a água como força espiritual, ancestral e política, e como essa visão inspira a regeneração de rios e florestas
A água segura o mundo: Ancestralidade líquida
A sabedoria dos povos originários revela a água como força espiritual e política. Só quem escuta a água entende o equilíbrio entre o humano e o mundo.
“Água namora com uma pedra.
A pedra sempre feliz vai ficar.
A água corre no rio e esse rio cai no mar.
O mar segura o mundo.
E o mundo segura o mar de novo.
Os dois seguram os homens, e os
homens será que vão segurar?”
— Yanin Kaiabi, poeta do povo Kaiabi
Yanin Kaiabi pertence ao povo indígena Kaiabi, que vive principalmente no Parque Indígena do Xingu, território de vastas florestas e uma pluralidade de povos, línguas e modos de existir. Seu poema abre o “Livro das Águas”, documento que celebra a importância da água e sua presença espiritual na cultura dos povos indígenas do Xingu.
Entre as diversas histórias sobre a origem das águas, há um traço comum: a água como força de criação e de respeito. Nos mitos, ela nunca é mero recurso natural, mas um ser vivo, dotado de memória e temperamento, que exige cuidado e reciprocidade.
Para o povo Kaiabi, por exemplo, os rios nasceram de um erro humano e de um aviso desobedecido. No início do primeiro mundo, não havia rios, apenas chuva. Um pajé alertou um homem para que não tivesse relações com sua esposa num brejo sagrado, o yataran. O homem ignorou o aviso e a água, ofendida, explodiu e se espalhou pelo mundo, criando os rios. Desde então, a água carrega em si o poder do limite e do recomeço.
Outros povos do Xingu contam sobre espíritos das águas, como Karuat, o guardião dos remansos; Titirákriti, o tatu das profundezas que pode fazer as águas sumirem; ou Mã, entidade feminina capaz de transformar humanos em seres aquáticos. Há também o fogo azul das águas, fenômeno misterioso que surge e desaparece sem deixar rastros.
Esses mitos revelam uma percepção em que o mundo natural é também o mundo espiritual, não há fronteira entre a natureza e o sagrado.
Para os povos originários, a água é mais que elemento: é ancestralidade líquida.
Sagrada e vital, ela é o início e o elo entre todas as formas de vida. Símbolo de criação, está presente em rituais e celebrações. * Elemento de identidade, molda a cultura e o pertencimento a cada território.
Hoje, essa relação ancestral se traduz em ações concretas de resistência e regeneração. No extremo sul da Bahia, no Parque Nacional do Monte Pascoal, o povo Pataxó constrói a aldeia Tatuí, um projeto liderado por Arassari Pataxó, que busca restaurar a natureza e honrar os ancestrais.
Diante da escassez de água e dos danos ambientais, os Pataxó desenvolvem projetos de reflorestamento de nascentes, sistemas agroflorestais e iniciativas de saneamento que asseguram a qualidade da água e da vida.
O trabalho dos povos indígenas pela recuperação das águas é também um ato de futuro. Ao restaurar rios e florestas, eles restauram o equilíbrio entre o humano e o natural, o visível e o invisível. Num tempo em que o planeta seca e ferve, talvez sejam eles, com sua sabedoria antiga, quem ainda ensina o mundo a segurar o mar.
Desenho: Aturi Kaiabi
Jornalismo: D+ Editora
Fonte: Viva Magazine



