A CASACOR São Paulo 2026, que abre ao público nesta terça-feira (02.06), não se trata apenas de arquitetura e decoração. Para o arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar, que assina o Co-Living Chiquitano, também é uma ferramenta capaz de contar histórias.
Participando simultaneamente da CASACOR Bolívia e da edição paulista da mostra, o profissional assumiu para si a missão de apresentar ao público brasileiro uma faceta ainda pouco conhecida de seu país: a Chiquitania, região do leste boliviano onde tradições indígenas milenares seguem vivas e dialogam com a herança deixada pelas missões jesuítas.
Com referências ao estilo barroco mestiço da selva, o ambiente reúne mais de 200 obras, máscaras, partituras, instrumentos musicais, peças artesanais e mobiliários autorais desenvolvidos em parceria com artistas e artesãos bolivianos. Em cada detalhe, podemos ver a arquitetura se transformando em ferramenta de preservação cultural, conectando história, música, religiosidade e saberes ancestrais em uma leitura contemporânea do morar.
Participando simultaneamente da CASACOR Bolívia e da CASACOR São Paulo, o profissional boliviano transforma memória, ancestralidade e arte em uma experiência contemplativa que expõe uma Bolívia pouco explorada.
Tocado pelo tema da mostra, Mente e Coração, Eduardo assume seu legado de divulgar a ampla riqueza cultural de seu país e nesta edição compartilhará tradições e memórias da região situada na fronteira seca entre Brasil e Bolívia, que foi colonizada por missionários jesuítas.

Depois de consolidar sua trajetória na Bolívia e no Brasil e tornar-se um dos nomes mais assíduos das mostras CASACOR nos dois países, o arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar volta à CASACOR São Paulo 2026 com o projeto mais íntimo e autoral de toda sua carreira: o Co-Living Chiquitano, um ambiente de 32 m² concebido como uma travessia afetiva pela cultura da Chiquitania, região do leste boliviano, marcada pelo encontro entre os povos originários e a influência das missões jesuítas.
O trabalho apresentado nasce do mergulho pessoal que o profissional realizou em suas próprias raízes e da vontade de transformar arquitetura em ferramenta de preservação cultural.
Assim, Eduardo se aprofundou em pesquisas, conheceu artistas, artesãos locais, percorreu igrejas, povoados e centros históricos para compreender as diversas camadas culturais que moldaram a identidade chiquitana. Ao longo desse processo, também descobriu o quanto essa herança permaneceu invisibilizada dentro da própria Bolívia.
“Comecei essa incursão em novembro do ano passado e, desde então, fui quatro vezes à Chiquitania. Cada viagem foi de grande aprendizado e tive a oportunidade de conversar com líderes indígenas e os próprios artesãos”, relata o arquiteto.
Natural de Santa Cruz de La Sierra, ele se deu conta que ainda conhecia pouco da ancestralidade preservada pelo país – durante o período escolar, não recebeu ensinamentos sobre suas origens –, e afirma que a cultura das terras baixas na Bolívia foi diminuída por muito tempo.
“Essa participação na CASACOR acabou se tornando uma missão muito pessoal, porque fui profundamente tocado pela história da Chiquitania e pela forma como esse legado permanece vivo através da arte, da música, da arquitetura e do fazer artesanal”, revela Eduardo, enfatizando que essa imersão atribuiu a ele um verdadeiro compromisso de compartilhar as tradições de seu povo.

A 39ª CASACOR São Paulo propõe o tema ‘Mente e Coração’, incentivando reflexões sobre os espaços de morar como ambientes de acolhimento, desaceleração e conexão humana diante das angústias contemporâneas e do excesso de estímulos tecnológicos.
“A mente aparece no extenso estudo que promovi para compreender a arquitetura missionária da Chiquitania. Já o coração está nas minhas lembranças, nas referências afetivas da infância e na emoção de transformar minhas origens em arquitetura”, explica.
Barroco mestiço da selva

Ao entrar no Co-Living Chiquitano, a presença intensa da madeira envolve o visitante quase imediatamente e estabelece uma atmosfera calorosa. Eduardo pontua que a estruturação do ambiente é resultante da imagética que designou para representar os vértices culturais da região.
A copa retrata a culinária local, enquanto os elementos dispostos acima do sofá refletem a mística do povo chiquitano. Para complementar, a parede oposta, com o oratório, designa a religiosidade inserida pelos jesuítas, além de desenhos e fotografias que apresentam a restauração das Igrejas Imaculada da Concepción e San José de Chiquitos, que aparecem como referências centrais do projeto.
A partir desse encontro histórico entre indígenas e missionários, nasceram centros urbanos onde a arquitetura católica europeia passou a coexistir com técnicas, desenhos e tradições indígenas, originando o chamado barroco mestiço da selva. Reconhecidas como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1990, as Missões Jesuítas da Chiquitania preservam até hoje manifestações ligadas à música, à pintura, à escultura em madeira e ao fazer artesanal.
As características que constituem o ambiente

No Co-Living Chiquitano, cada detalhe é representado pela profunda observação de Eduardo. Nas seis colunas adornadas com as boiseries, ele contou a maestria empreendida pelo artista visual boliviano Leoni Antequera que concebeu pinturas, a partir de pigmentos naturais, com referências às plantas e flores indígenas. “Por estar imerso na cultura chiquitana, ele realizou uma produção notável e muito fiel ao que está estampado nessas duas igrejas”, observa Eduardo.
O profissional expõe que o desenho orgânico do forro, que remonta às abóbadas encontradas tanto na Imaculada da Concepción, quanto San José de Chiquitos, foram erguidas com material da Teto Vinílico by Talt. Junto com os painéis amadeirados que recobrem as paredes, ele incluiu o preciosismo dos detalhes geométricos em losangos, uma alusão às ornamentações típicas presentes nas igrejas.
Todos esses traços detalham, minuciosamente, as construções do período colonial, capitaneadas pelo jesuíta suíço, arquiteto e artista Martin Schmidt em companhia dos indígenas locais. Ainda de acordo com Baldelomar, a combinação estética dos materiais, restaurados em 1972 pelo arquiteto jesuíta Hans Roth, propõe transportar o visitante, de maneira sutil e contemporânea, por meio da sensação de caminhar pelos espaços sacros Chiquitanos, onde a madeira sempre ocupou papel central tanto na estrutura, quanto na ornamentação.










