Direto da 3ª edição da Viva Magazine, entenda como a canalização e o asfalto soterraram os rios paulistanos, e por que reabri-los é parte do futuro da cidade
Rios Soterradois: A cidade que esqueceu a própria nascente
Do rio ao asfalto, São Paulo, uma cidade alagada
Muito antes da ocupação urbana, a região onde hoje se ergue a cidade de São Paulo já vivia de alagamentos. A topografia natural e a abundância de rios faziam com que, nas épocas de chuva, as águas transbordassem, formando lagoas e pequenas “praias” temporárias. Esses cursos d’água seguiam trajetos sinuosos, respeitando o relevo e o tempo da natureza. Corriam devagar e, talvez por isso, eram belos.
Hoje, infelizmente, a maioria desses rios está enterrada, canalizada, invisível aos olhos da população. A retificação acelerou seu curso, e com ela, nossa desconexão com a própria paisagem.
O rio Pinheiros, por exemplo, teve o fluxo invertido, uma das tantas intervenções de um pensamento industrial que ignorou o ser humano e a natureza.
Rio Pinheiros 1930 | Rio Pinheiros 2022 (mapas). Fonte: Grupo Himaco/Unifesp/Arquivo Público do Estado de São Paulo
Poucos acreditam que São Paulo ainda guarda tantos rios, como revela o mapa hidrográfico da cidade. Foi justamente essa fartura de água limpa, abundante, generosa, que atraiu os primeiros habitantes: os povos originários Guarani Mbya, Tupinambás, Tupiniquins e Goianás.
Mais tarde, os bandeirantes e colonizadores também se fixaram às margens desses rios, abrindo caminhos que, com o tempo, se transformaram em ruas e avenidas. Se sobrepusermos o mapa viário ao hidrográfico, veremos que muitas vias seguem o traçado original desses cursos d’água agora soterrados.
O irônico é que a água, razão de ser da cidade, tornou-se sua principal vítima.
Ao matar os rios, matamos parte de São Paulo.
As enchentes de hoje não são acidente: são o retorno inevitável das águas, emergindo sob o asfalto impermeável.
A cidade nasceu às margens do Tamanduateí (“rio do tamanduá verdadeiro” ou “rio de muitas voltas”), hoje soterrado. O grito do Ipiranga, o “rio vermelho” das águas barrentas, também foi silenciado. Sua nascente ainda resiste no Jardim Botânico, raro parque permeável, e o rio segue oculto sob as avenidas Professor Abrahão de Morais, Ricardo Jafet e Teresa Cristina, até desaguar no Tamanduateí.
O Itororó, o “jorro d’água”, nasce próximo à Avenida Paulista, corre sob a 23 de Maio e encontra o Ribeirão Anhangabaú, a “água do mau espírito”. Ambos, agora canalizados, às vezes gritam e choram, invadindo o túnel sob o Vale do Anhangabaú, até desaguarem no Tamanduateí. Ali perto, o Bexiga ainda resiste como lembrança, passa junto ao Teatro Oficina, projeto de Lina Bo Bardi, e há um movimento para transformá-lo em parque e “descanalizar” o rio, trazendo-o de volta à superfície.
O Córrego da Traição, hoje enterrado sob a Avenida dos Bandeirantes, recebeu esse nome por sua correnteza traiçoeira, que virava embarcações. Ele deságua no Pinheiros, perto da antiga Usina Elevatória de Traição (hoje Usina São Paulo), criada para reverter o fluxo dos rios Pinheiros e Tietê e abastecer a Represa Billings. Hoje, sua principal função é controlar enchentes.
O Aricanduva (“sítio das plantas aíris”) nasce no alto da Zona Leste, no distrito de São Rafael, a quase mil metros de altitude. Suas nascentes estão poluídas, uma delas, ironicamente, no aterro sanitário São João. Já o Embu-Guaçu (“cobra grande”) nasce na Serra do Mar e deságua na Represa de Guarapiranga, mas sofre com assoreamento e lixo.
A cidade sem rios perdeu sua identidade
Entregamos São Paulo às máquinas, ao concreto, à pressa. Vivemos hoje as consequências desse “futuro sem rios”, que molda um urbanismo impermeável e desumanizado.
O futuro precisa apontar na direção oposta: reabrir os rios, o chamado daylighting, restaurando trechos soterrados, resgatando a memória e a função ecológica dessas águas. Esses projetos formam uma nova infraestrutura verde, essencial para a resiliência hídrica da cidade.
Iniciativas inspiradas na ideia de “cidade-esponja” ganham força no mundo: permitir que os rios retomem seus percursos, devolvendo à topografia natural o papel de guia, criando parques, áreas alagáveis e espaços de convivência.
Além de mitigar enchentes, essas soluções podem gerar novas formas de lazer e transporte, quem sabe, um dia, até táxis fluviais paulistanos?
Mais que infraestrutura, trata-se de consciência: contar a história hídrica da cidade é reconectar seus habitantes com o que foi escondido.
São Paulo não terá futuro sem seus rios. Eles são a origem, e talvez, a única chance de sobrevivência.
Leituras necessárias
CIDADE DAS ÁGUAS, da arq. Saide Kahtouni.
Este livro trata das relações entre São Paulo e seus recursos hídricos desde o nascimento da cidade até os dias atuais. Discute as consequências sobre a paisagem urbana e seu ambiente das escolhas e aplicações tecnológicas que passam a remodelar os rios da cidade, ampliando a oferta de solo para ocupação urbana. Canais, reservatórios e outras obras de arte vão surgindo, enquanto os antigos vínculos cotidianos dos habitantes com as águas vão se apagando na urbe. Esta obra procura trazer para a memória coletiva algumas histórias e conexões perdidas em mais uma cidade das águas, chamada São Paulo.
CIDADE DAS ÁGUAS: usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo (1822-1901), de Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora livre-docente de História.
Este livro trata das relações entre São Paulo e seus recursos hídricos desde o nascimento da cidade até os dias atuais. Discute as consequências sobre a paisagem urbana e seu ambiente das escolhas e aplicações tecnológicas que passam a remodelar os rios da cidade, ampliando a oferta de solo para ocupação urbana. Canais, reservatórios e outras obras de arte vão surgindo, enquanto os antigos vínculos cotidianos dos habitantes com as águas vão se apagando na urbe. Esta obra procura trazer para a memória coletiva algumas histórias e conexões perdidas em mais uma cidade das águas, chamada São Paulo.
Documentário: https://www.instagram.com/riosdescobertos/
Jornalismo: D+ Editora
Fonte: Viva Magazine



