Uma filosofia que levou o Brasil ao topo do mundo
VIVA: Longevidade rara No Brasil, apenas 0,02% das empresas alcançam um século de existência. A que o senhor atribui esse sucesso da Tramontina? Que conselhos daria a outras empresas que sonham com essa mesma longevidade?
Clovis Tramontina: Entusiasmo, otimismo, competência e paixão pelo negócio: essa é a base do nosso sucesso, a essência de tudo o que fazemos. E, até hoje, mantêm a Tramontina forte, jovem e inovadora. Mais fortes do que a solidez do aço inox são os valores humanos que, ao longo de mais de um século, vêm moldando a marca.
Na Tramontina, seguimos apostando na descentralização, na especialização e na tecnologia como estratégias para produzir e entregar produtos e serviços de excelência. O conselho é manter-se atual sem perder a essência do negócio, buscando ampliar cada vez mais o conhecimento e o reconhecimento da marca. Para nós, não basta conversar apenas com quem já conhece a Tramontina; é fundamental abrir diálogo com novos consumidores. Em geral, são jovens que já trazem da família a experiência com os produtos, mas que precisam, cada vez mais, sentir-se próximos da marca.
Esse contato acontece hoje, mais do que nunca, no ambiente digital, nas redes sociais e no e-commerce.
VIVA: Formação e herança familiar
O senhor tem sólida formação em administração e direito, além de MBAs de gestão no Brasil e na França. Onde a teoria acadêmica foi decisiva — e onde o “aprendizado de fábrica” falou mais alto?
Clovis: Comecei minha carreira seguindo a filosofia da empresa: para ocupar qualquer posição de comando, é preciso conhecer a organização. Por isso, antes de assumir a presidência em 1992, trabalhei durante anos em diversos setores da Tramontina, até chegar à minha grande vocação: a arte de negociar. Essa trajetória me permitiu desenvolver diferentes conhecimentos e habilidades.
Minha educação e formação foram, sem dúvida, fundamentais para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Elas me trouxeram repertório sobre o mundo e o mercado, além de me conectarem a diferentes pessoas. O aprendizado no “chão de fábrica”, no entanto, foi o que realmente moldou minha trajetória dentro da Tramontina. Ao conhecer cada setor da empresa, suas potencialidades e necessidades, consegui desenvolver uma liderança mais consciente e assertiva.
VIVA: Infância e vocação
Quais lembranças da infância junto à empresa mais o marcaram? Sempre houve o desejo de continuar na gestão familiar ou já cogitou seguir outro caminho? Se não fosse a Tramontina, onde imagina que estaria hoje?
Clóvis: Desde criança, eu queria ser presidente da Tramontina. Sempre acompanhava meu pai na fábrica, aos domingos ou fora do expediente, e desde então me imaginava fazendo parte da empresa. Preparei-me para esse caminho e não tive medo de assumir responsabilidades.
Por isso, construí minha carreira passando por diversas áreas, até chegar à gerência do Sudeste e, posteriormente, à presidência da empresa. Se não trabalhasse na Tramontina, certamente seria vendedor ou atuaria na área comercial, ou de marketing.
VIVA: O catálogo e a alma da marca
Com mais de 22 mil itens no portfólio, quais produtos mais o emocionam e por quê? Há algum que o senhor considere o grande símbolo da Tramontina para o mundo?
Clóvis: Acredito que o produto mais simbólico da marca, tanto para mim quanto para a empresa, seja o Canivete Santa Bárbara, nosso primeiro produto lançado. Ele representa o marco inicial da Tramontina, as raízes da nossa jornada empreendedora.
Hoje, para o mundo, o símbolo da Tramontina são as panelas e os talheres. Lembro-me de uma ocasião em que, em um restaurante no exterior, percebi que os talheres eram da Tramontina. Foi ali que entendi que estávamos nos tornando uma referência global nesse segmento.
VIVA: Inovação e valorização humana
A Tramontina foi pioneira ao introduzir robôs já nos anos 1980, mas nunca deixou de valorizar as pessoas. Hoje, são mais de 10 mil colaboradores, e cerca de 2 mil foram contratados em plena pandemia. A criação do Centro Educacional Ivo Tramontina reforça esse compromisso.
Qual foi a principal motivação para criar o CEIT? E, olhando para o futuro, como equilibrar o avanço da automação com a valorização das pessoas dentro da empresa?
Clóvis: Desde a fundação, acreditamos que a principal razão do nosso trabalho é promover qualidade de vida para as pessoas. Nesse sentido, mantemos um compromisso permanente com o desenvolvimento das comunidades em que estamos inseridos.
O Centro Educacional Ivo Tramontina (CEIT) nasceu com o propósito de fortalecer a formação e o bem-estar das pessoas, que sempre foram o maior valor da Tramontina. Localizado em Carlos Barbosa, berço da empresa, o espaço homenageia um dos fundadores e oferece desde capacitações profissionais e palestras até atividades culturais e ações voltadas à saúde.
Mesmo pioneira em automação e tecnologia, a marca entende que a inovação só faz sentido quando caminha junto à valorização humana. Por isso, o desenvolvimento vai além do ambiente de trabalho, e o cuidado não se limita aos colaboradores. A Tramontina também apoia iniciativas que impactam comunidades em todo o Brasil, como a parceria com a Gerando Falcões e outros projetos sociais, reforçando seu propósito de crescer para transformar vidas.
VIVA: Expansão internacional
Como foi construída a estratégia de internacionalização da Tramontina, que hoje está presente em mercados estratégicos como Estados Unidos, Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia?
Clóvis: A internacionalização da Tramontina começou na década de 1960, com a exportação de produtos para o Chile. Desde então, ampliamos continuamente nossa presença em diversos mercados ao redor do mundo. Essa estratégia combina investimentos em tecnologia, o desenvolvimento de coleções adaptadas às preferências de cada região e a proximidade com os clientes, garantindo produtos de qualidade e soluções diferenciadas, mesmo diante dos desafios globais.
Atualmente, contamos com 26 unidades operacionais fora do Brasil, incluindo 19 centros de distribuição, quatro escritórios regionais de vendas, um escritório de qualidade e serviços e duas fábricas. Em 2025, inauguramos nossa primeira fábrica no exterior, em parceria com a Aequs, na Índia. A unidade produz panelas e utensílios de cozinha para o mercado local e também para exportação, fortalecendo nossa capacidade global e a logística de atendimento.
Esse crescimento internacional reflete o equilíbrio entre tradição e inovação. Ao manter estruturas próprias em países estratégicos, conseguimos estreitar o relacionamento com os clientes, responder com mais agilidade às demandas de cada mercado e expandir globalmente o legado de qualidade da Tramontina. Hoje, estamos presentes em mais de 120 países, levando produtos confiáveis, funcionais e com design diferenciado, sempre adaptados às necessidades e à cultura de cada região.
VIVA: Futuro e sucessão
Como o senhor enxerga o futuro da Tramontina e o papel das próximas gerações da família na continuidade desse legado? De que forma tradição e inovação podem caminhar juntas para garantir a relevância da empresa nos próximos 100 anos?
Clóvis: Enxergo o futuro da Tramontina com muito otimismo. Nosso grande desafio é continuar atualizados, trazendo inovação e tecnologia, sem perder a essência tradicional que acompanha nossos 115 anos de história. A marca sempre se apoiou em valores sólidos: valorização das pessoas, satisfação do cliente, liderança, trabalho, transparência e devoção, e esses princípios continuam sendo o guia para os próximos passos.
As próximas gerações da família têm papel fundamental nesse processo, garantindo a continuidade do legado, ao mesmo tempo em que conduzem a empresa para novos segmentos e mercados. Queremos que cada produto Tramontina entregue soluções práticas e experiências positivas aos consumidores, mantendo o equilíbrio entre tradição e inovação. Com isso, seguimos fortalecendo a marca, expandindo seu alcance e preparando a empresa para mais cem anos de crescimento, relevância e confiança.
Tenho o sonho de ver a Tramontina no Top 10 maiores empresas do mundo.
VIVA: Cultural e visionário
Falamos sobre a trajetória da empresa, inovação, pessoas e futuro. Hoje, a Tramontina já ultrapassou a dimensão empresarial e se tornou um verdadeiro símbolo brasileiro. Para encerrarmos, gostaria de lhe perguntar: na sua visão, o que a Tramontina representa para a identidade do Brasil no mundo?
Clovis: A Tramontina vai muito além do que produz: representa a vocação brasileira para fazer bem feito, o compromisso e a busca contínua pela qualidade. Mais fortes do que o aço inox são os valores humanos que moldam a marca há mais de um século, tornando nosso nome sinônimo de tradição e confiança entre os brasileiros.
Quando alguém entra em uma casa e vê, por exemplo, um jogo de panelas Tramontina que passou de geração em geração, fica claro que entregamos mais do que produtos: entregamos experiências e memória afetiva.
No mundo, a Tramontina é símbolo da excelência brasileira, demonstrando que é possível aliar inovação, design e qualidade com ética, cuidado e paixão pelo que se faz. Sou otimista e sempre acreditei no Brasil; levar nossa marca a mais de 120 países é, para nós, levar um pedaço da identidade brasileira com orgulho e responsabilidade.
Confira toda linha de produtos da Tramontina no Viva Decora Shop.
Fonte: Viva Magazine
Jornalismo: João Marinho (MTB 42048/SP)



