Rodrigo Ohtake fala sobre arquitetura humanista em entrevista exclusiva para a Viva Magazine 3ª edição

por Viva Home
0 comentários
Rodrigo Ohtake fala sobre arquitetura humanista em entrevista exclusiva para a Viva Magazine 3ª edição

Publicada nas páginas da 3ª edição da Viva Magazine, a entrevista conduzida por Alvaro Guillermo revela a visão de Rodrigo Ohtake sobre arquitetura, espaços coletivos, identidade brasileira, inovação e o papel social do design.

O espaço onde a vida acontece

Rodrigo Ohtake propõe uma arquitetura guiada por uma visão humanista e coletiva.

Por Alvaro Guillermo

Rodrigo Ohtake
Foto: Ruy Teixeira · Rodrigo Ohtake
Rodrigo Ohtake
Foto: Ruy Teixeira · Rodrigo Ohtake

Um dos maiores desafios da crítica é resistir à tentação de resumir a obra de um arquiteto à de seu ancestral. Essa tarefa se torna ainda mais complexa quando falamos de Rodrigo Ohtake, filho do icônico Ruy Ohtake e da arquiteta Sílvia Vaz, sobrinho do arquiteto Ricardo Ohtake e neto da renomada artista plástica Tomie Ohtake. Ao conversar com Rodrigo, porém, percebe-se que sua trajetória, embora atravessada por uma herança genética e criativa, segue caminhos singulares. Ele desenvolveu uma voz própria, muito mais afinada em coral que em solo.

No escritório de Rodrigo respira-se história e futuro. A entrada se abre sem barreiras, entre protótipos, mesas de trabalho e uma biblioteca que, mesmo fragmentada após a doação de 3 mil volumes à Universidade Mackenzie, ainda ocupa lugar central.

A conversa passeia por teoria da arquitetura, inspiração, sociedade e liberdade criativa. “Ohtake” é hoje também o nome de sua empresa, propositalmente sem delimitar a atividade, um gesto de amplitude.

Ele recorda como a influência familiar se manifestou cedo, moldando sua percepção de que arquitetura e relações humanas são indissociáveis da vida. O sobrenome, longe de ser um peso, foi plataforma para a experimentação. Viagens e visitas com o pai ensinaram-no a pensar fora da caixa, a desafiar o senso comum, seja adivinhando a medida do pé-direito de ambientes, seja valorizando tanto o rigor técnico quanto o compromisso social com populações mais vulneráveis.

Essas lições se traduzem em uma prática que valoriza inovação, sustentabilidade e comunidade. Para Rodrigo, arquitetura não é erguer edifícios, mas criar espaços que dialoguem com o entorno e promovam encontros. Seu posicionamento é claro: humanista.

“Parece óbvio, mas é preciso entender por que fazemos arquitetura, por que fazemos design. É para as pessoas.” “O mundo é mais rico quando as pessoas se encontram. A vida é muito mais agradável. A arquitetura é uma ferramenta poderosa para promover encontros. Se as calçadas fossem mais largas, se houvesse mais árvores, mais parques… como a vida não seria melhor?” — Rodrigo Ohtake

O “óbvio”, lembra o filósofo Mário Sérgio Cortella, “nem sempre é óbvio”. Por isso é necessário repetir e exemplificar. É no projeto que se revela a intenção do espaço. Rodrigo explica:

“Você vai fazer um prédio de escritórios, o arquiteto escolhe onde vai ficar a posição do elevador e onde vai ficar a posição da catraca. E isso faz muita diferença. Por quê? Tem muitos prédios de escritório que o elevador está lá no fundo, mas a catraca está logo na entrada. Então você já é logo barrado. Há muitos prédios em que o elevador está em posição mais central e aí o hall também fica pequeno. Em nossos projetos, o elevador fica no fundo e a catraca fica logo à frente do elevador. De modo que o hall é uma continuidade também da rua. Numa casa é a mesma coisa. O arquiteto pode escolher fazer suítes gigantescas ou fazer salas maiores. Isso tem uma filosofia arquitetônica que é: você está promovendo mais o espaço individual ou o espaço coletivo ou o social? A gente vai muito pelo coletivo. E por isso que vai muito além da questão formal, é uma questão também de posicionamento da arquitetura, porque, querendo ou não, fazer arquitetura é se posicionar.” — Rodrigo Ohtake

Se o legado de Ruy Ohtake é uma comparação inevitável, Rodrigo constrói sua identidade explorando materiais, formas e texturas que refletem sua visão de mundo. Como o pai, que evoluiu em fases, ele se permite experimentar. Assim também foi a própria trajetória de Ruy; a casa da Tomie, feita em três etapas, demonstra isso. Ao falar da família e da profissão, exibe o brilho nos olhos de quem cria por paixão.

Fluente nas referências ao Movimento Metabolista e ao Modernismo brasileiro, cita arquitetos do mundo todo com naturalidade, compondo um discurso lúcido sobre identidade, arquitetura na atualidade e essa tal “brasilidade”.

“Os arquitetos japoneses mais proeminentes partem de uma matriz comum: o Metabolismo, que é muito interessante. O Brasil, no auge do Modernismo, teve uma identidade da arquitetura brasileira forte, talvez das escolas de arquitetura mais importantes do mundo. Hoje, essa ideia de uma escola que define o país não existe mais. As fronteiras se diluíram. Num país continental como o Brasil, não há uma identidade única: a Amazônia não é o pampa. As identidades estão cada vez mais regionais, e isso é muito positivo.” — afirma.

A reflexão ecoa Zygmunt Bauman: identidades fluidas, mutáveis, que escapam à rigidez da modernidade sólida.

“Estive recentemente em Santa Cruz de la Sierra para fazer uma palestra, e visitei a Amazônia boliviana, a 3 mil metros de altitude. Lá, a floresta lembra a Mata Atlântica: densa, úmida, muito diferente da Amazônia brasileira, mas ainda assim, Amazônia. Identidade é algo muito mais fluido.” — Rodrigo Ohtake

Com abertura ao diálogo, muitas de suas respostas vieram em forma de perguntas:

• “Frank Gehry é a identidade da arquitetura americana?”

• “Na Itália, qual é a identidade arquitetônica? Fuksas? Renzo Piano?”

• “E a identidade do design brasileiro? Sérgio Rodrigues, Zalszupin, Zanini, J. Tenreiro? Ou o design indígena, o da Ilha do Ferro, que existiam paralelamente, mas recebiam menos atenção?”

”Porque, mesmo entre Zanini e Sérgio Rodrigues, tem uma diferença enorme se a gente analisar microscopicamente. A semelhança é a madeira.”

Essas questões revelam sua disposição filosófica: questionar o senso comum e repensar as narrativas hegemônicas.

Falamos também sobre o equilíbrio entre razão e intuição, o reto e o curvo, o gesto e o cálculo, o individual, o social e o colaborativo. É nesse ponto que a influência de Tomie Ohtake emerge:

“Minha avó nunca falou a palavra intuição, mas ela criava de maneira intuitiva. Isso se refletiu no Ruy e se reflete em nosso trabalho. Quem gosta de criar não gosta de se repetir. Tem que alimentar a intuição o tempo todo, isso exige contato com arte, arquitetura, natureza, livros, conversas como estas.” — conta.

Antes de encerrar, Rodrigo compartilhou leituras recentes: Humanizar, de Thomas Heatherwick, designer inglês, premiado e conhecido por seu uso inovador da engenharia e materiais em esculturas e arquitetura em monumentos públicos; Por que ler os clássicos, de Ítalo Calvino, justificando porque está relendo livros da juventude antes da universidade; e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, cuja trama de amor e identidade segue atualíssima.

Sem dúvida, a história de amor platônico e trágico, de Riobaldo apaixonado por Diadorim, um companheiro jagunço misterioso e andrógino é tão atual, que merece esta nova leitura.

Ao deixar o escritório, fica clara a certeza: a nova geração Ohtake não vive à sombra do passado. Rodrigo constrói com talento, criatividade e colaboratividade um futuro que honra sua herança e, ao mesmo tempo, ousa inovar.

Saiba mais sobre o profissional:

Site: https://ohtake.com.br/

Instagram: https://www.instagram.com/__ohtake/

Jornalismo: Alvaro Guillermo – D+ Editora

Fonte: Viva Magazine

Posts relacionados

Deixe um comentário