Na CASACOR Rio 2026, acessibilidade, design e afeto dão forma a um novo jeito de morar Assinado por Jairo de Sender e Corbellini Lopes Arquitetura, o Apartamento Entre Gerações, de 108 m², combina autonomia, flexibilidade e convivência em um espaço pensado para acompanhar diferentes fases da vida
Na arquitetura, pensar o futuro também significa entender que a casa precisa acompanhar as transformações da vida. É a partir dessa premissa que nasce o Apartamento Entre Gerações, espaço de 108 m² criado por Jairo de Sender e Corbellini Lopes Arquitetura para a CASACOR Rio 2026. O loft reúne sala de estar e jantar, cozinha, quarto, banheiro, home office e um espaço dedicado à neta dos moradores.
Pensado para um casal na faixa dos 70 anos, em que a mulher é cadeirante, a acessibilidade orientou o projeto desde o início. Ao mesmo tempo, o casal gosta de receber filhos e amigos e costuma hospedar a neta, que está no espectro autista. A partir dessas particularidades, o ambiente foi desenhado.
“O projeto nasce da convicção de que a arquitetura tem o poder de acolher, conectar e promover qualidade de vida em todas as fases da existência. Queríamos mostrar que um espaço pode ser funcional e, ao mesmo tempo, profundamente emocional”, explicam Priscilla Corbellini e Ana Clara Lopes, co-fundadoras e diretoras da Corbellini Lopes Arquitetura.
O conceito conversa diretamente com o tema desta edição da mostra, “Mente e Coração”. De um lado, estão as decisões técnicas relacionadas à ergonomia, acessibilidade, circulação e flexibilidade. Do outro, os espaços pensados para os encontros, as memórias e a convivência familiar.
Acessibilidade como ponto de partida
No loft, a acessibilidade não é tratada como um elemento incorporado posteriormente ao projeto, mas como parte de sua concepção. Cozinha, banheiro, quarto e sala foram planejados com áreas adequadas para o giro da cadeira de rodas, garantindo circulação e autonomia para a moradora.
“A acessibilidade precisava estar incorporada à arquitetura desde o primeiro desenho. Não queríamos criar um espaço adaptado, mas uma casa em que todas as soluções fossem naturalmente integradas à estética, à funcionalidade e à experiência de morar”, destaca Ana Clara.
A proposta também mostra que soluções voltadas à acessibilidade podem estar integradas à linguagem do ambiente. O resultado é uma casa contemporânea e acolhedora, em que conforto, segurança e estética caminham juntos.
A flexibilidade aparece ainda nas cortinas utilizadas como elementos de divisão. Como os moradores gostam de receber, os espaços podem ser transformados de acordo com a ocasião, mantendo a integração do loft quando desejado e criando maior privacidade quando necessário.
Um espaço pensado para a neta
A relação entre diferentes gerações ganha uma expressão especial no ambiente dedicado à neta do casal, que está no espectro autista e costuma passar a noite com os avós.
Pensado para proporcionar acolhimento e bem-estar, o espaço reúne nichos para livros, cama com rede de proteção e iluminação indireta desenvolvida em parceria com a Dimlux. A ambientação faz referência ao antigo Trem da Prata, que circulava entre Rio e São Paulo na década de 1980, criando uma atmosfera que também dialoga com memória e afeto.
“Esse espaço nasceu do desejo de fazer com que a neta tivesse um lugar verdadeiramente dela dentro da casa dos avós. Pensamos em segurança, conforto e acolhimento, mas também em criar uma atmosfera afetiva, que trouxesse referências capazes de despertar memória e familiaridade”, conta Priscilla.
Natureza e design brasileiro
A materialidade reforça a atmosfera acolhedora do apartamento. Verde escuro, bordô e azul aparecem em uma paleta marcada por profundidade, enquanto materiais naturais, texturas e paisagismo aproximam o interior da natureza.
Assinado pela Vitae Paisagismo, o projeto paisagístico foi concebido para trazer para dentro do apartamento a presença das árvores do entorno. A copa das árvores permeia o interior e cria uma espécie de continuidade entre dentro e fora, reforçando a sensação de aconchego e permanência.
“Queríamos que a natureza também participasse da experiência de morar. O paisagismo cria essa conexão entre exterior e interior e traz uma sensação de acolhimento, como se a copa das árvores abraçasse os moradores”, explicam.
O mobiliário também tem papel central. O projeto reúne peças de designers brasileiros, entre elas a mesa de jantar e o banco assinados por Karol Suguikawa, a cama, o banco e a poltrona de Roberta Banqueri e a icônica poltrona Tetê, de Sergio Rodrigues.
Uma casa para hoje e para o futuro
A sustentabilidade aparece no projeto menos como recurso pontual e mais como princípio de longevidade. Materiais de qualidade, soluções atemporais, mobiliário nacional e espaços flexíveis foram priorizados para reduzir substituições e permitir que o apartamento acompanhe diferentes momentos da vida.
A iluminação também foi planejada para oferecer conforto visual e eficiência, enquanto a acessibilidade assume um caráter permanente. Ao criar um espaço que pode se adaptar às necessidades dos moradores ao longo do tempo, o projeto aproxima sustentabilidade, inclusão e permanência.
Essa ideia de continuidade também está presente na concepção do ambiente. A parceria entre Jairo de Sender, com sua trajetória consolidada, e a Corbellini Lopes Arquitetura, escritório comandado por Priscilla Corbellini e Ana Clara Lopes, estabelece um diálogo entre experiências, repertórios e diferentes perspectivas sobre o morar.
“A própria parceria que deu origem ao ambiente representa esse encontro entre gerações. Existe muito valor quando diferentes experiências, repertórios e olhares se encontram. É dessa troca que nasce uma arquitetura mais rica e humana”, destacam Priscilla e Ana Clara.



