Roberto Burle Marx: o legado da água no paisagismo brasileiro

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Roberto Burle Marx: o legado da água no paisagismo brasileiro

Direto da 3ª edição da Viva Magazine, descubra como Roberto Burle Marx transformou espelhos d’água, fontes e jardins tropicais em símbolo de identidade cultural, do Palácio Itamaraty ao Parque Burle Marx em São Paulo

Roberto Burle Marx: Legado e o papel da água na construção da paisagem brasileira

por Alvaro Guillermo

Parque Burle Marx
Foto: Site da Prefeitura de São Paulo

Poucos nomes conseguiram redefinir a relação entre arquitetura, natureza e identidade cultural no Brasil como Roberto Burle Marx. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores paisagistas do século XX, ele foi muito mais que um criador de jardins. Seu trabalho consolidou uma nova maneira de pensar a paisagem: não como pano de fundo, mas como protagonista de uma narrativa estética, ambiental e social.

Associado ao modernismo e a grandes nomes como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, Burle Marx projetou jardins, parques e espaços públicos que se tornaram ícones. O Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, os jardins do Palácio da Alvorada e do Palácio Itamaraty, em Brasília, são apenas alguns exemplos de sua contribuição monumental. Mas o maior legado não está apenas na grandiosidade dessas obras: está na sua visão de que a paisagem é linguagem cultural.

Roberto Burle Marx
Foto: Divulgação

Burle Marx resgatou a flora brasileira, antes marginalizada como “mato”, e a transformou em elemento central de composição. Ao valorizar espécies nativas e reinterpretá-las em arranjos plásticos, ele deu forma a um paisagismo autenticamente brasileiro, que dialogava com o modernismo mas mantinha raízes tropicais. Essa postura não apenas projetou o Brasil no cenário internacional, como também abriu caminho para uma consciência ambiental pioneira, décadas antes do debate sobre sustentabilidade ganhar espaço.

Nota importante: O Parque do Ibirapuera, em São Paulo, muitas vezes é erroneamente associado a Burle Marx. De fato, ele chegou a desenvolver um projeto preliminar para o parque, mas que não foi executado. O paisagismo implantado na inauguração, em 1954, foi de autoria do engenheiro agrônomo Otávio Augusto Teixeira Mendes. Essa diferença ilustra bem o caráter inovador de Burle Marx, cuja proposta, centrada em espécies nativas, ainda não encontrava espaço na estética predominante da época.

Palácio do Itamaraty
Foto: AC Moraes

O Itamaraty e a imagem do Brasil no mundo

Entre os muitos projetos de Burle Marx, merece destaque especial o paisagismo do Palácio Itamaraty, em Brasília, sede do Ministério das Relações Exteriores. Mais do que um jardim, ele projetou um cartão de visitas do Brasil para o mundo.

Os espelhos d’água que circundam o edifício dialogam com as colunatas de concreto de Oscar Niemeyer, ampliando o efeito monumental e criando reflexos que parecem dissolver a rigidez da arquitetura.

Nos jardins internos, Burle Marx explorou espécies tropicais, transformando o interior em um microcosmo da biodiversidade brasileira, um espaço de contemplação e frescor em meio à monumentalidade do palácio.

Já na cobertura, o jardim suspenso funcionava como extensão da paisagem, integrando a arquitetura ao horizonte de Brasília e reafirmando sua convicção de que a vegetação deveria ocupar todos os níveis da vida urbana. Assim, o Itamaraty sintetiza sua visão: o paisagismo como embaixador cultural, representando o Brasil moderno, tropical e profundamente ligado à sua natureza.

Esse percurso é altamente simbólico: inicia-se com a recepção dos visitantes por uma ponte sobre a água, metáfora da chegada ao território brasileiro. Ao ingressar no edifício, o visitante se depara com jardins internos que evocam um microcosmo da floresta amazônica, permitindo uma experiência sensorial de proximidade com a biodiversidade nacional. Por fim, no jardim da cobertura, abre-se a visão para o horizonte de Brasília, onde a mata se integra ao espaço de convivência e contemplação, reafirmando a ideia de futuro e de integração entre cultura, natureza e sociedade.

Palácio do Itamaraty (5)
Foto: commons.wikimedia.org – Boaventuravinicius · Palácio do Itamaraty

“Na minha primeira viagem a Brasília, o protagonista, para minha surpresa, não foi o modernismo expressivo de Oscar Niemeyer, mas os jardins tropicais indígenas de Roberto Burle Marx. Isso me levou em uma peregrinação ao seu próprio jardim (1949) nos arredores do Rio de Janeiro. Burle Marx se tornou tão privado de direitos por paisagens coloniais dominadas por espécies europeias que fez expedições na Amazônia para trazer de volta espécies tropicais não catalogadas e não apreciadas para seu próprio jardim. Meio paraíso, meio berçário, Sítio Roberto Burle Marx pode ser um dos lugares mais biodiversos que já visitei.” — Bjarke Ingels, em um manifesto: Por que o futuro da arquitetura precisa de plantas?

Fachada do Palácio da Justiça, sede do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), localizado na Esplanada dos Min
Foto: Ricardo Stuckert / PR · Fachada do Palácio da Justiça, sede do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), localizado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília

A água como matéria viva da paisagem

Dentro desse legado, a água ocupa um papel fundamental. Burle Marx compreendia a água não como adorno, mas como matéria viva e expressiva, capaz de transformar profundamente a experiência do espaço. Em seus projetos, lagos, fontes e espelhos d’água eram pensados para cumprir múltiplas funções, unindo estética, conforto climático e simbolismo.

Em primeiro lugar, havia a dimensão plástica e poética. A água refletia o céu, a vegetação e a arquitetura, multiplicando formas e cores. Tornava-se superfície de diálogo, onde o jardim ganhava nova leitura, mais fluida e dinâmica. Fontes e quedas d’água traziam movimento, ritmo e brilho, transformando o espaço em um espetáculo sensorial.

A segunda dimensão era funcional e climática. Em um país tropical, Burle Marx usava a água como reguladora do microclima. Espelhos d’água refrescavam áreas abertas, ampliando a sensação de conforto térmico. Essa solução simples e natural demonstrava sua atenção à ecologia e ao bem-estar humano, muito antes de tais preocupações se tornarem pauta da arquitetura sustentável.

Outro aspecto era a integração com a natureza. Burle Marx tinha profundo apreço pelos rios, mares e lagos do Brasil, que influenciaram sua paleta e sua geometria. Ao projetar, buscava continuidade entre o espaço construído e a paisagem natural. A água era, portanto, elo de conexão entre o urbano e o natural, entre o artificial e o orgânico.

Por fim, havia a dimensão sensorial e emocional. O som da água em movimento, o brilho da luz sobre a superfície líquida, a sensação de frescor e tranquilidade eram elementos usados para despertar experiências. Mais que jardins, seus projetos eram ambientes de contemplação e encontro.

Parque Burle Marx (7)
Foto: https://jornalismosp.espm.edu.br/ · Parque Burle Marx
Parque Burle Marx (8)
Foto: Leonardo Finotti · Parque Burle Marx

Burle Marx em São Paulo

Além de sua atuação em Brasília e no Rio de Janeiro, Burle Marx também deixou importantes marcas em São Paulo. Entre seus projetos na cidade, destacam-se o paisagismo da sede do Banco Safra e o paisagismo do Edifício Itália.

Também desenvolveu projetos para residências particulares e áreas institucionais, sempre trazendo a valorização das espécies nativas e a integração com a arquitetura. Esses trabalhos demonstram como sua linguagem se expandiu para além dos grandes marcos nacionais, dialogando com o tecido urbano paulista e consolidando sua presença como referência no cenário cultural brasileiro.

O chamado Gramado Xadrez , com cerca de setecentos metros quadrados, combina duas espécies distintas de grama, a esmeral
Foto divulgação · O chamado Gramado Xadrez , com cerca de setecentos metros quadrados, combina duas espécies distintas de grama, a esmeralda e a Santo Agostinho variegata

Parque Burle Marx

Com aproximadamente quatro mil metros quadrados, o Parque Burle Marx abriga um dos jardins mais emblemáticos da capital paulista. Seu desenho revela a síntese entre rigor geométrico e exuberância tropical, marcas inconfundíveis do paisagista.

O espaço é composto por um conjunto de quinze palmeiras imperiais, dispostas lado a lado ao longo da extensão do jardim, criando um eixo monumental. O chamado Gramado Xadrez, com cerca de setecentos metros quadrados, combina duas espécies distintas de grama, a esmeralda e a Santo Agostinho Variegata, formando um tapete verde que evoca um tabuleiro de xadrez. Atrás dele, ergue-se a área do pergolado, que conduz ao espelho d’água, enriquecido por fontes e cascatas que acrescentam movimento e sonoridade à paisagem. Dois painéis de concreto em alto-relevo e a presença imponente de árvores pau-ferro completam o conjunto.

As copas variadas das espécies arbóreas, dispostas em diferentes planos, criam uma verdadeira arquitetura vegetal: zonas de sombra, filtragem de luz e áreas mais expostas ao sol. Essa manipulação consciente da vegetação, explorando troncos e copas como elementos plásticos, é uma das marcas mais recorrentes e sofisticadas da obra de Burle Marx.

Instalado em 1950 e restaurado em 1991, o parque é reconhecido como patrimônio histórico-cultural de São Paulo. Além de representar a assinatura de um dos maiores nomes do paisagismo brasileiro, constitui um exemplo eloquente de como a cidade pode conservar e valorizar seus bens culturais urbanos, mantendo viva a memória de um projeto que une arte, natureza e identidade.

Roberto Burle Marx (10)
Foto divulgação · Roberto Burle Marx

Atualidade e inspiração

O olhar de Burle Marx permanece atual e necessário. Em tempos de crise climática e crescente urbanização, seu entendimento da água como recurso vital, estético e ambiental ganha nova força. Ele nos lembra que o paisagismo não deve ser visto como luxo ou ornamento, mas como estratégia essencial de qualidade de vida. Ao integrar arte, ecologia e cultura, Burle Marx criou uma obra que transcende o paisagismo: construiu um modo de pensar o Brasil. A água, em seus projetos, não apenas corria em fontes e lagos, ela fluía como símbolo de vida, equilíbrio e identidade.

O maior legado, portanto, é esse: compreender que cada gota, cada planta e cada traço podem compor um gesto de arte e, ao mesmo tempo, de pertencimento. Burle Marx mostrou que paisagismo é cultura. E que a água, elemento vital da natureza, também pode ser poesia.

Jornalismo: Alvaro Guillermo

Fonte: Viva Magazine

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