Em uma matéria publicada na revista física Viva Magazine 3ª edição, Alvaro Guillermo explora como o desenho à mão de José Ricardo Basiches revela autoria, criatividade e identidade na arquitetura contemporânea.
Linhas que escapam, imagens que permanecem
O traço como identidade e a autoria de Basiches
por Alvaro Guillermo
Desenhar é mais do que registrar uma ideia: é uma forma de pensar o mundo com as próprias mãos. O arquiteto José Ricardo Basiches cultiva esse gesto em múltiplas superfícies, no guardanapo improvisado durante uma conversa, no caderninho que carrega constantemente e que se tornou quase uma extensão do corpo, ou mesmo no iPad, onde o traço encontra novas camadas e possibilidades.
Há também um caderno reservado apenas para a caligrafia, exercício disciplinado de ritmo e precisão, que revela como a escrita e o desenho partilham a mesma raiz: ambos são expressão, ambos são linguagem.
Estudos de neurociência demonstram que o uso da mão livre no desenho estimula a criatividade, enquanto a automatização via CAD, sem esboços iniciais, pode “achatar” o processo de imaginação criativa.
Se a arquitetura é a arte de criar espaços, o desenho é o primeiro tecido dessa construção. As palavras texto e textura vêm do latim textus, que significa “tecido”, derivado do verbo texere, “tecer” ou “entrelaçar”. Essa origem revela muito: cada linha desenhada é como um fio que, somado a outros, compõe uma trama de sentidos. O desenho de Basiches não é apenas croqui, mas também textura mental, fio condutor que entrelaça intuição, técnica e emoção em um mesmo gesto.
Ao observar seus esboços, percebemos que não se trata de uma representação fiel ou mera antecipação da forma final. São registros vivos do instante criador ou de observação, onde a arquitetura ainda é fluida, aberta, pulsante. O guardanapo rabiscado, que poderia parecer efêmero, adquire valor de documento, porque nele está o traço singular do arquiteto, sua identidade em estado bruto. O caderno de croquis, por sua vez, é território de experimentações, onde volumes, perspectivas e ideias se sobrepõem como camadas de memória. As linhas fogem, mas a imagem permanece.
Mesmo quando migra para o iPad, o gesto é o mesmo: a mão guia a mente, e a mente guia a mão. A tecnologia amplia a velocidade, mas não apaga a marca pessoal. O que se preserva é a autoria: a maneira como Basiches pensa com o traço, como traduz o espaço em linhas, como inscreve sua própria voz gráfica na arquitetura.
Num tempo em que imagens digitais parecem uniformizar representações, e em que a inteligência artificial pode estimular a preguiça criativa, os desenhos à mão livre lembram que cada arquiteto tem uma caligrafia própria, um modo único de tecer sua visão do mundo.
Percebemos claramente sua autoria, que gera também sua autoridade, ambas vindas da mesma raiz latina, auctor. Num mundo repleto de informações falsas, reconhecer a origem e a autoria é reconhecer autenticidade, e isso adiciona valor simbólico e cultural. Nos traços de Basiches reconhecemos projetos, imaginação, criatividade, cidades, edifícios e, sobretudo, o amor pelo que ele faz incansavelmente.
A tecnologia amplia a velocidade, mas não apaga a marca pessoal.
Saiba mais sobre o profissional:
José Ricardo Basiches
Site: http://www.basiches.com.br/projetos/
Instagram: https://www.instagram.com/basiches/
Jornalismo: Alvaro Guillermo
Fonte Viva Magazine



